Os argentinos agora fazem fila em bancos e lojas de câmbio para conseguir dólares e guardar onde puder

“Na outra esquina, o dólar está um peso mais barato”, disse, alvoroçado, Hector Becerra, 81 anos, aos que estavam na fila de uma casa de câmbio do microcentro de Buenos Aires, na Argentina, coração das operações financeiras da cidade.

Becerra contou a sua saga nos últimos dias ao jornal Folha de S.Paulo. “Desde que o dólar começou a aumentar, tenho comprado, mas antes recorro às casas de câmbio da rua para ver qual está com o melhor preço.”

Becerra teme que a crise atual se transforme na nova versão do “corralito”, colapso cambial que levou à maxidesvalorização do peso em 2001 e jogou a economia no buraco. “A ordem das coisas é exatamente esta: inflação, FMI, dólar dispara, daqui a pouco já não vai ter moeda americana para vender, e quem tem dinheiro em pesos no banco perde. Já caí nessa, perdi um montão no ‘corralito’.”

A Argentina é um dos países mais dolarizados do mundo. Peso e dólar convivem no dia a dia. Mas, nas horas de uma crise, o argentino se refugia na moeda americana.

Na semana passada, a forte pressão sobre câmbio em escala global foi especialmente cruel com os argentinos. Na terça-feira, dia 8, o peso se desvalorizou em 5%, e o governo anunciou que pediria ajuda ao FMI (Fundo Monetário Internacional) — algo que não ocorria havia 15 anos.

No dia 4, o banco central elevou os juros básicos de 27,5% ao ano para 40% na tentativa de segurar investidores e dólares, cujas cotações não param de oscilar.

“Atração turística”

Os painéis das casas de câmbio até viraram atração turística em Buenos Aires. Argentinos e estrangeiros param para tirar fotos. Leo Negrete, 40 anos, explicou o motivo das fotos. “É para mandar para meu grupo de amigos do trabalho”, disse enquanto mostrava a tela de seu celular, onde várias fotos de seus outros contatos retratavam placares de casas de câmbio ao lado de emojis com carinhas de desespero.

O professor universitário Julio Almeyda, 49 anos, também fotografou cotações na sexta-feira. “Estou tirando fotos desde o começo da rua, porque é inacreditável o que está acontecendo: em cada casa de câmbio o dólar tem um valor, e, a cada hora que passa, outro”, contou.

Mas não se limitou a registrar o fenômeno. Quando ouviu do presidente Mauricio Macri que o país voltaria ao FMI, Almeyda dolarizou a sua conta bancária. No país é possível ter depósitos tanto em peso quanto em dólar.

“Liguei para o gerente na hora e pedi para transformar tudo em dólares, mas me atrasei, já estava na alta. Não creio que vá haver uma catástrofe, mas, como já vi de tudo neste país, não custa se precaver.”

O temor agora é o que virá a seguir. A história mostrou que a espiral de deterioração pode ser implacável. “Eu já tenho tudo em dólar, o que mais me preocupa é que essa alta se transfere a tudo — comida, transporte, e a inflação, que já está alta, não vai baixar. Não dá para acreditar que estamos vivendo isso de novo, é a nossa história se repetindo”, disse Raul Matcovich, 39 anos, que tem uma empresa de segurança.

No périplo por dólares, o valor das notas virou fonte de irritação. Casas de câmbio argentinas, que trocam dólar no paralelo, só costumam aceitar notas de US$ 100. Nas agências, a orientação da gerência tem sido a de entregar as economias das pessoas em dólar, mas em notas pequenas, de US$ 20 ou US$ 50, para evitar uma fuga em massa do capital do banco.

Para conseguir notas de US$ 100, é preciso enfrentar uma saga entre “cuevas” (casas de câmbio clandestinas) e contatos com “arbolitos” (doleiros também clandestinos).

“É para nos irritar, não é uma coisa séria”, reclamava Gisela Cardó, 58 anos, que tentava enfiar o maço grande de dólares em notas de US$ 20 na bolsa.

Em uma agência de um banco internacional, no bairro nobre de Belgrano, na quarta-feira, havia uma fila de clientes que queriam fazer outro tipo de operação.

Na Argentina, em razão da desconfiança generalizada com os bancos, além de oferecerem contas, as agências alugam caixas de segurança. Se o cliente aluga uma delas, não precisa declarar o que vai guardar dentro e leva a única chave para casa.

Foi exatamente isso o que Lydia Nieto, 52, fez: “Zerei minha conta corrente, transformei tudo em dólares e coloquei na caixa de segurança. Votei em Macri, mas sou argentina, não confio em ninguém”.

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Post Author: rita